quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Um anjo de Deus












Como um anjo Deus mandou você aqui p'ra nos mostrar o que é o amor.
Do seu jeito, sem falar, você mostrou que Deus está neste lugar
Hoje eu sei que você colhe lindas flores, corre entre as colinas e faz o que nunca fez.
Foi Jesus quem levou você de volta, nos seus braços te carrega e junto a ti o nosso coração...
Com as minhas mãos eu louvo
Com a minha voz eu canto
Essa canção que fiz p'ra demonstrar amor
Com as minhas mãos eu louvo
Com a minha voz eu canto
P'ra você que está do lado do Senhor.
Uma menina de branco, envolta em asas, sinto seu perfume de jasmim.
Na cabeça uma coroa de rosas claras e no seu olhar o meu olhar.
Você quis sempre brincar, cantarolar belas canções e não teve nem a chance de dizer à sua mãe:
"_Eu te amo e o meu coração é teu!"
E agora, aí do Céu, é você quem ora por nós e aqui a gente tenta suportar a nossa dor
Amparados pelo abraço do Senhor.

Com as minhas mãos eu louvo
Com a minha voz eu canto
Essa canção que fiz p'ra demonstrar amor
Com as minhas mãos eu louvo
Com a minha voz eu canto
P'ra você que está do lado do Senhor.
por Daniel Amarhal
( datado de 14/09/04 8h18 )
*In memorian Thamires Siqueira da Silva (27/08/2004)
Foto: divulgação!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

...momentos que são meus...

Hoje pela manhã recebi a ligação de um amigo de Belo Horizonte.




_Bee, que saudade da senhora! Quais as novas?

Nenhuma! _respondi estupefato pela hora da ligação e a dor de dente surreal!

_Ai, que horror! Não pode ser...

Acredite, querido. A minha vida não é um mar de rosas!

_ A minha, então, piorou! Terminei meu namoro, bee!

Ih, lá vem bomba...

_E que bomba, Dani! Você acredita que ele me trocou por um americano horroroso?

Quem mandou a senhora ser muito franca? Ninguém gosta de ouvir a verdade, por mais simples que esta seja.

_Ah, mas acho melhor ser sincero na dor que falso na alegria! E tem mais, quero que ele seja feliz, sabe?

Sei... sei como é. Eu também sempre desejo o bem.

_Mas me conta. E o coração?

Batendo!

_Ai, Dani! Você tem tantos predicados!

Tenho é me prejudicado, bicha, com esse meu sentimentalismo barato!

_Mas conheço tantas pessoas que queriam namorar você, sabia?

Jura? Me apresenta, então!

_Ah, não se faça de humilde. Aí mesmo, na Baixada, tem uma fila à sua espera.

Só se for para fazer cobrança!

_Que nada! O Aquiles, meu amigo louro que você acha t-u-d-o, te acha incrível!

Achar incrível não é achar lindo.

_Mas você quer ser lindo pra quê? Pessoas lindas sofrem!

Pára tudo! A senhora diz isso porque nunca está solteira. Engata um namoro no outro como se trocasse de roupa. E escolhe namorado como se escolhe que chá vai tomar...

_Invejosa! (KKKKKKKK)

Invejosa, não!

_Brincadeira! Mas você fica solteiro porque escolhe demais. Deixe alguém te escolher, ora bolas!

Ah tá, entendi tudo. Quem você quer me apresentar? Porque todo mundo cismou que preciso namorar agora.

_Mas você precisa namorar mesmo, Dani! Tenho um amigo francês que vai adorar você...

Francês fede! E você sabe que tenho aversão a mau-cheirosos!

_E o japonês?

Hum... não sei, não. Você fala do Tokiko?

_É, ele mesmo! Tem um restaurante incrível aqui em BH! É super fofo, rico e carinhoso.

Faz mais o seu tipo!

_Que mané tipo, tá besta? E você acredita nisso?

Não. Mas ele não me encanta!

_Porque é gordinho?

Claro que não! Não ligo pra físico! Mas ele não gosta muito de ler, não é?

_Ai, você ainda tá nessa de namorar um nerd? Me poupe!

Não quero namorar um nerd, como não quero namorar um cara rico ou um expert em vinhos.

_Quer o quê? Um pedreiro?

Não sei! Sendo um ser humano tá bom!

_Pára! Não venha com esse papo bethânico de que casinha simples com gerânios na janela vai lhe fazer a pessoa mais feliz do mundo...

E se fizer? E se esse for meu destino?

_Mas você já viveu tantas coisas boas. Conheceu tantos restaurantes bons... vai querer mesmo se desfazer disso?

Ora, e o que me adiantou conhecer restaurantes bons? Depois voltei à minha realidade, jumento!

_Mas McDonald's não faz ninguém feliz. Eu, pelo menos, não sou!

Mas é porque você nunca amou de verdade. Quando a gente ama não interessa o lugar, a roupa, o perfume Bulgari. Importa a pessoa que está do nosso lado.

_Que poético!

Sim, é poesia mesmo. Talvez isso se deva ao fato de eu ter lido muito Clarice, Cecília e Beauvoir.

_Ah, Dani. Essas coisas não te fazem feliz. Preste atenção nisso!

Bicha, a senhora blefa! A leitura me completa, me satisfaz e me teletransporta p'ra um universo particular, onde vai entrar só quem eu quiser, entende?

_Não!

Ah, desisto! Me ligou pra isso?

_Não! Liguei para matar as saudades e contar um bafo.

Então conte.

_Então, sabe aquele meu ex, o Rafael. Vai ser ator da Malhação!

Jura?

_Juro. E quer voltar comigo. O que faço?

Você o ama?

_Nem sei. Mas ele é tão lindo!

E beleza é tudo?

_P'ra mim é!

Que pena.

_Por quê?

Ora, porque de pão e circo já vive a sociedade. E quem faz diferença se opõe a isso.

_Mas nem quero me opor à sociedade!

Então, meu bem, não reclame da vida!

_Mas nem reclamei, bee!

Tá bom, eu que sou neurótico mesmo!

_É, percebi! Vai morrer solteiro!

Que morra. E que seja como Isadora Duncan. Enforcado num foulard de seda Hermès.

(kkkkkkkkkkkkk)


por Daniel Amarhal

(esqueci a data da façanha, mas é tão atual ainda em mim...)

Foto: divulgação!

Os meninos da minha idade...

Os meninos da minha idade querem sexo, música eletrônica e tênis de mola...
O sexo é despudorado, porém, sem sentimentos. Uma mistura de prazer e verborragia carnal que não combina muito com minha verve piegas!
A música eletrônica de hoje não é a mesma que escutam amanhã. Não tem letra, melodia e, tão pouco, frases inteiras. É um baticum dum dum sem reflexões que beira o abismo da superficialidade!
Os tênis, pagos em suaves prestações, querem adulterar o status quo da falta de senso comum e de estética. Porque é através do número de molas que os pés ostentam que se mede a capacidade daquela pessoa ser interessante!

Os meninos da minha idade não querem comer porque os fast-foods não contemplam a boa forma deles! Vivem de saladas de alface e vez ou outra deliciam-se com temperos exóticos. A única e maior 'extravaganza' deles é uma colher de brigadeiro feito com Toddy distribuído em casamentos burlescos!

Os meninos da minha idade falam de tudo. Falam da roubalheira no Planalto, do caso Isabella e até do terremoto na China. O que lhes falta é jogo de cintura quando o assunto é a própria realidade deles. Todos fogem de suas verdades como o diabo foge da cruz!

Não existe parâmetro para beleza natural. A vaidade é aguçada até na hora de dormir. E mesmo que eles não conheçam lençóis egípcios a cueca Calvin Klein já é suficiente para alterar-lhes o ego!

Os meninos da minha idade detestam o Brasil! E têm pena de ouvir falar das favelas, assim como têm medo de andar de ônibus. Falta-lhes a crítica, a coragem de se auto-aceitarem e assumirem para si mesmos que a vida é besta e sem graça desse jeito! E que é muito melhor ser um nerd solteiro que um troclodita musculoso, de calça Diesel e boné New Era, que cada dia leva mais um interesseiro para a cama!

Os meninos da minha idade, no fundo, são bem tristes. Eu também sou, mas me permito rir nas ocasiões mais inusitadas, enquanto esses mesmos meninos perdem-se em detalhes completamente desnecessários!

por Daniel Amarhal
(esqueci a data!)
Foto: acervo pessoal!

Para Felipe Morozini

De repente, no céu, eu vi um arco-íris.
E era tão lindo de ver que parecia sonho.
E o sonho parecia a vida
e a vida imitava a arte!

(para Felipe Morozini e sua arte colorida e abusada!)
por Daniel Amarhal
Foto: Felipe Morozini (Tk's!)

domingo, 24 de agosto de 2008

Insensibilidade Inesperada


"Deixa eu chorar até cansar..."

Eu queria me prender a sentimentos menos banais. Queria me sentir menos culpado, menos dilacerado... Como se nada valesse à pena.
Mas o que me persegue é sempre a mesma sensação, a sensação de vazio, de exposição. A sensação de espirituliadade inexata, como num filme de Almodóvar!

Quero sempre estar sorrindo, mas não me permito tirar máscaras!
Quero sempre estar de bem com os outros mas não me permito um minuto se quer de paz. Quero sempre parecer o pior, o mais frágil.
Quero sempre a incerteza alheia, a incapacidade de expressão!
Mas agora, nesses exatos dias tão deprimentes, já nada mais sei...
Não sei mais de mim, das pessoas que amo.
Não sei mais se elas me conhecem, se eu as entendo...
Não sei mais nada!

Os poemas que leio já não mais me sensibilizam.
As cartas que escrevo já perderam os destinatários!
Folhear jornais me irrita!
As revistas de moda são visionárias, mas me iludem! A televisão me intriga, me irrita tanta falta de pieguice!

Sou sim, uma fera ferida...
"No corpo, na alma e no coração!"
Um destino dos mais fortes, uma alma sem penas! Sou uma luz que irradia a glória dos outros, que esquece da própria escalada!
Uma virtude descompromissada daqueles que não me conhecem!
Um insensível desesperado!

por Daniel Amarhal
(datado de 29/11/2006)
Foto: divulgação!

sábado, 23 de agosto de 2008

Eu preciso de você...


Eu preciso de você, mas te deixo ir;
preciso da sua liberdade, de sua real alegria.
Não te quero por momentos pra depois ter que passar a vida tentando te esquecer.
Eu preciso de seu corpo revelado no meu, de seu perfume me envolvendo o estômago e de sua quietude na hora do amor.
Não preciso de desculpas, nem de confetes.
Preciso de sua mão enluvando a minha.

Eu preciso de você, mas nada cobro.
Sei de suas dúvidas, de seus sentimentos.
Sei até das cobranças que faz a si mesmo.
Não quero te obrigar a nada.
O amor que tenho já é suficiente p'ra nós dois e você não precisa se culpar por isso!

Eu preciso de você, mas te entrego.
Te abro meu peito, me refaço.
Tenho o seu olhar me guiando à luz!
Não te quero só pela metade...

E se for pra ser meu, que seja.
Senão é melhor que fique como está.
Porque o que te faz mal me machuca.
E o que te faz bem me enobrece!

por Daniel Amaral
(datado de 04/08/2005)
Foto: acervo pessoal!

Re/Fazendo a maestria

Pra que mentiras se a verdade é o que me conforta?
Pra que estórias repetidas se posso eu mesmo escrever uma nova a cada dia?
Pra que amigos sensatos se o que me alegra no ser humano é a embriaguez?
Pra que batidas eletrônicas se o que me conforta são canções de amor?
Pra que poesias se o que me sustenta são contos eróticos?
Pra que palavras rudes se o que me mantém de pé são as frases sartrianas?
Pra que filosofar se na hora H a gente nem fala termos técnicos?
Pra que beijar na boca se o que me alivia é o regozijo alheio?
Pra que manias se as minhas só me entregam?
Perguntas para quê?
_Para estar perdido no meio de minhas próprias dúvidas?

por Daniel Amarhal
datado de 15/12/2006
Foto: acervo pessoal!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Oração para os surdos

Não,não sei da minha posição sexual!
Não sei da minha vizinha; se ela é evangélica ou se são os seus três cachorros que latem!
Esqueci de contar o tempo quando coloquei meu coração no forno. E ele, óbvio, se aqueceu demais e acabou queimando o dedo daquele que me tocou.
Não falo nada com nada.
Detesto, aliás, quando as coisas fazem sentido!
Sou um reconvexo.
A língua de Luiz de Camões pregada na boceta de Pandora!

"Sou um instantâneo de coisas apanhadas em delito de paixão".
A metamorfose ambulante de Raul impregnada na saia rodada de Mãe Menininha do Gantois.

Odoiá, mãezinha.
Vim me abençoar
Nas águas serenas do teu mar de Odofiaba!

Ai, quase ía me esquecendo de Nanã.
O canto da solicitude, o sopro do vento rasgado.
A voz que me alimenta a alma e a clareza que me ilumina os dias!

Odoiá, mãezinha.
Inaiê, sereia do Arocá.

Balançam as ondas e a água salgada molha os meus cabelos.
Os meus pés sentem o flutuar das areias por entre as cavidades dos meus dedos!

EU SOU FILHO DE LOGUN-EDÉ.
AIÁ OIÔ EDÉ!

Ai yá yá
Desarme essa negritude que me alarmeia os poros!
Eleva-me ao patamar de sua santidade!
Protejei-me do mal olhado e daqueles seres viçosos que me rodeiam com falsos brilhantes e jóias reluzentes!

Odoiá, mãezinha...
Odoiá!
Traga a beleza de seu colar de pérolas para iluminar os meus dias!

Não, não sei da minha posição moral!
Porque existe um pouco de mim naquele que me ignora!
por Daniel Amarhal (datado de 13/02/2007)

A prostituta que gostava de Kant.

0h25: Gaspar pega o telefone e disca o número de um celular encontrado num anúncio de jornal.
0h27: A ligação se completa.
_Boa noite! Eu gostaria de solicitar seus serviços.
[Do outro lado da linha, a moça responde:]
_Qual deles?
_Ora, tenho direito de escolher?
_Claro! O preço, por exemplo, só é dado após o cliente informar o que pretende de nossos serviços.
_Pois bem...só preciso de alguns minutos de prazer intenso. Acho que uma boa chupada resolve meu problema!
_Ótimo! Mas se eu chegar aí e o senhor achar melhor eu fazer outra coisa pagará o dobro... Portanto, estarei levando comigo uma tabela com os preços de cada posição.
_Então venha logo; mal posso esperar!
0h43: Gaspar está eufórico. Avisa ao porteiro que uma moça chamada Dafne vai subir e que ele não quer ser perturbado. Ele também prepara os drinks e uns canapés...
0h51: Dafne bate à porta. Ela é convidada a entrar. Gaspar logo sugere uma bebida:
_Um copo de whisky?
_Não bebo em serviço, obrigada!
_Ora, vais rejeitar um autêntico escocês 12 anos?
_Rejeitaria Dom Perignòn, minha bebida preferida!
_Nossa! Como você é autêntica! Uma puta que toma Dom Perignòn?
_Qual o problema?
_Nenhum, me desculpe...
1h12: Gaspar tira a camisa. Liga o som e escolhe um Cd de Chet Baker.
_Você gosta de jazz?
_Sim, gosto! Mas prefiro Ella, Cole Porter e Bossa Nova.
_Ora, uma puta que escuta Bossa Nova?
_Não vim aqui para falar de minhas preferências musicais. Você vai tirar o resto da roupa, ou não?
_Sim, sim... tirarei agora, se quiser...
[Ela interrompe]
_Pois tire logo. Estou perdendo a minha paciência!
1h23: Ambos se encontram pelados. Ele se deita no albuçon e pede que ela comece a chupá-lo.
_Tudo bem, você é quem manda!
_Delícia. Faça o tempo que você quiser. Pago o que achar necessário, certo?
_Certo, monsieur...
_Ah, não! Não me diga que você fala francês?
_Voulez-vous coucher avec moi?
_Oui, mademoiselle! Falta agora você me dizer que lê Dostoievski e Kierkegaard!
_Não aprecio nenhum dos dois; eu os acho patéticos. Mas sou devota de Kant e sua metafísica!
_Como? Uma prostituta que lê Kant? Ora, francamente! Você deve ser frígida na cama!_Monsieur me ofende dessa maneira. Sou uma lady, apesar das circunstâncias que me levam a vender meu próprio corpo...
_Falta agora você me dizer que estudou no Sacré Coeur!
_Sim, estudei lá! E fui depois morar em Berlim, onde me formei em Filosofia.
_Não minta! Não vou transar com uma mulher frígida!
_E você acha que sou frígida porque sou filósofa? Seja menos apático, seu imbecil!
1h47: A prostituta se veste. Pega sua bolsa e quando está de saída o cliente a segura pelo braço. _Aonde você pensa que vai?
_Vou-me embora! Você está me machucando! Solte meu braço ou grito!
_Estou lhe pagando. Você nada fez ainda...
_Nem vou fazer!
_Porque não? Veio aqui para me dar sermão e lição de moral?
_Não! Eu vim aqui como uma prostituta qualquer. Você começou a me fazer perguntas e eu acabei me esquecendo que não posso revelar minha identidade.
_E daí?
_Daí que você fica achando que puta não estuda! Fica me julgando sem me conhecer. Você é um ser abominável! Preconceituoso!
_Puta!
_Estúpido!
_Vagabunda!
_Imoral!
2h01: Os dois se atracam! Eles se entregam aos prazeres da carne, finalmente!

(...)

2h54: Eles se banham. No chuveiro, ele pergunta:
_Será que podemos nos ver mais vezes?
_Claro! É só você me ligar!
_A propósito, quanto você ganha por dia?
_Hum, depende... Tem dias que ganho R$200,00. Em outros, chego a embolsar cerca de R$1.500,00!
_Nossa! Mas você transa com quantos homens num dia?
_Com um só!
_E chega a ganhar R$1.500,00 de um único cliente?
_Claro!
_Pois eu te pago R$1.800,00 todo dia para você ser só minha!
_Como é que é?
_Isso mesmo! R$1.800 para você todo dia!
_E você ganha tanto assim?
_Não interessa! Mas te pagarei isso todos os dias se você vier.
_Ora, você acha que sou idiota?
_Não. Sei que você não é idiota! Mas eu quero ter a certeza de que você será só minha.
_Pois fique tranquilo! Eu aceito!
_Não vai se arrepender!
_Nem você, monsieur!
2h29: Dafne vai embora. Gaspar, claro, comemora...


por Daniel Amarhal (datado de 12/02/2007)
Foto: divulgação!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Curriculum vitae

Se existe uma palavra que eu não suporto ouvir essa atende como o substantivo masculino currículo.
Quem está desempregado acaba se acostumando à chatice da pronúncia.
"Ah, tá sem emprego? Me manda um currículo seu que deixo lá na firma"!

É só isso que tenho escutado esses últimos meses. E vou confessar:_ tenho vontade de mandar ao inferno esses seres apócrifos que acham que através de duas folhas com dados trabalhistas meus vão conseguir decifrar os meus talentos.

Francamente, me diz quem consegue entender as razões de um ser humano estar procurando emprego e ter que colocar num sulfite A4 as suas características principais, além de ter que decodificar se este vale ou não à pena através de sua formação acadêmica e cursos complementares?

Tenho uma amiga que escreve magistralmente e é muito mais culta que o Zeca Camargo. Está desempregada!
Tenho uma outra que fez faculdade, mal sabe ler direito, escreve super mal. Diz que sua viagem inesquecível foi à Disney e se diz executiva numa empresa de grande porte no cais santista.

Dá pra entender?

Eu, se fosse empresário, não aceitaria currículo de ninguém. Ía definir um bom candidato no tête-a-tête. Qualificação profissional só serviria se a pessoa soubesse, ao menos, a diferença entre coser e cozido!
Não dou conta de tanta ignorância, sabia?

Pensando nisso resolvi disponibilizar aqui os meus dotes principais.
* Lavo (e não deixo marca de desodorante roll-on manchada debaixo do braço!);
* Passo (e não deixo, se quer, um vinco nas minhas camisas de popeline e cambraia!);
* Cozinho (até bem-casados eu sei fazer!);
* Bordo (sem deixar aparecer acabamento, procure o começo e o final da linha e você não vai achar!);
* Prego botões (madrepérolas, por favor!);
* Escrevo (compulsivamente sobre o cotidiano, moda, pessoas, invejosos, etc...);
* Componho (desvairadamente e Bethânia é a maior fonte. Me diz, agora, se alguém, na minha idade, escuta MPB?);
* Leio (ferozmente e detesto literatura estrangeira. Pra que Dan Brown se temos Guimarães Rosa?);
* Tenho amigos de verdade (quer coisa mais rara que isso nos dias de hoje?).

Enfim, parece currículo sentimental, eu sei, mas quem quiser mais informações entre em contato.
Outras aptidões só pessoalmente, ok?

Daniel Amarhal
11/08/2008
11h42
Foto: Eu trabalhando, tá? (Acervo pessoal!)

domingo, 10 de agosto de 2008

O pai do meu melhor amigo.


Numa dessas idas e vindas, o pai surpreendeu-nos falando sobre sexo. Convidou-nos para pescar no lago e afirmou que lá encontraríamos respostas para as nossas dúvidas mais infelizes.
Eu, já me achando parte da família, tentei argumentar que pescaria era coisa de velho, de gente désolé _ sim, eu usei esse termo!

O pai, por sua vez, explicou que a pescaria era apenas uma desculpa para unir-se ainda mais ao filho e para explicar-nos as maravilhas da puberdade adolescente.
Sem saída, nos trocamos e saímos tristonhos pensando na possibilidade de encontrar piranhas no rio.

Durante o percurso trocamos olhares confusos e não dissemos uma só palavra. Na rádio tocava uma música de estilo sertanejo, uma mulher desafinava a voz enquanto o pai berrava junto a melodia.

Enfim, quando chegamos ao local cada um pegou sua vara de pescar, mais o anzol e toda a parafernália necessária. Tendo fechado o carro o pai aproximou-se de seu filho e o abraçou com sofreguidão.

Sentados à beira do rio, lembrei que meu pai sempre contava de suas peripécias na infância com os olhos marejados.
À mercê daquelas águas a minha memória foi tomando a forma de uma reunião familiar. Fui revivendo uma história que há tempos meu coração de poeta insistia em guardar.
Pensei nos olhos verdes de meu pai, em seu semblante afável, na falta que o seu abraço me fazia...
Acabei deixando transparecer uma certa tristeza, afinal, uma saudade incurável se abatia em meu peito.

O pai do meu amigo, tendo percebido meu abatimento, abandonou sua vara e sentou-se ao meu lado. De repente, contou-me histórias de sua infância, falou de suas boas notas no ginásio e quis argumentar sobre o assunto que seu filho discutia comigo antes de sairmos.

"Sexo, assim como o despencar de uma estrela, o plainar dos pássaros e as gotas de orvalho na primavera, são delícias gratuitas que Deus nos dá. Portanto, para percebê-las com delicadeza é preciso ser poeta, é preciso um ouvido musical e um coração apaixonado. Cada uma dessas maravilhas tem como principal fundamento mostrar que a vida é bela, que podemos ser felizes com pequenos gestos".

Escutei calado, como se todas aquelas palavras fossem sussurros em meu ouvido. Uma música de melodia agradável, bem diferente da que ouvimos durante o trajeto!
O pai continuou:
"Vocês falavam de sexo quando cheguei ao quarto e convidei-os para essa pescaria. Pois vou lhes ensinar uma coisa. Antes de se deitarem com alguma mulher tenham o máximo respeito por ela. Assim como a mãe de vocês, ela poderá ser também parte importante de uma família. A mulher, ao contrário do que acreditam os imbecis, é que é um ser divino. E sem ela, nós, homens, nada somos. Sem ela não seria possível estarmos aqui. Afinal, Deus nos fez primeiro por motivos bem óbvios: somos um teste, a mulher, perfeição"

Meu amigo quis saber como se faz sexo, afinal, era isso o que discutíamos. O pai o interrompeu, dizendo:

"Isso não se ensina. Você saberá na hora certa, meu filho. Aguarde seu momento. Você tem só 14 anos. Na sua idade eu pensava em pipas e bolinhas de gude. Tenha calma e será um vitorioso"!

Sem entender nada nem tive coragem de fazer perguntas.
A vara foi puxada. Um peixe bem grande, que até hoje não recordo o nome, ciscou em meu anzol. O pai foi o único que não teve sorte de pescar unzinho se quer.
Voltamos para casa contentes com nossas conquistas marinhas e esquecemos todas as palavras daquele sábio pai.
(...)

Muitos anos depois ainda me recordo de cada gesto, de cada frase daquele homem que era apenas o pai do meu melhor amigo, mas que, sem imaginar, me tornou esse homem saudosista que hoje sou. Um pai que nada deixava faltar para seu filho, um pai distante, mas que tornava cada minuto um precioso presente para ele mesmo. Um pai que tantas outras vezes me chamou de filho, fazendo com que eu esquecesse por segundos da saudade que o meu deixou quando partiu!

Daniel Amarhal
10/08/2008
16h54
Para Ana Paula Zeïdman, minha amada amiga.
Foto: divulgação!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Manifesto Amarhalista e ponto final!

Para começar, como dar boas-vindas novamente? Como explicar mais um novo blog, com nome e intenções diferentes?

Poesia?
Lirismo?

Que será que pretendo aprontar dessa vez?
Que surpresas eu darei a mim mesmo?

Manifesto Amarhalista tem como principal fundamento o não-fundamento, ou seja, não explicar demais os acontecimentos, não prender-se a um só universo.

Afinal, eu, Daniel Amarhal, passeio pelo mundinho da moda, sou intruso na arquitetura e acabo me refestelando mesmo na escrita, seja ela poética, proseada ou musical.

O resultado?
_Um mundo quase que particular de um poeta em incessante mutação!

Aguarde e verás!

por Daniel Amarhal
09/08/2008
14h58
Foto: acervo pessoal!